Faltando apenas 7 dias para as eleições presidenciais, o apresentador Luciano Huck divulgou em rede nacional, em seu programa Domingão com Huck, neste domingo (27), a plataforma Tem Meu Voto, ferramenta acusada de direcionar eleitores para candidaturas da direita e do campo liberal.
O site, que faz uma espécie de Quiz com o eleitor, foi apresentado por Huck na TV Globo como uma iniciativa gratuita e “apartidária”, que promete calcular a proximidade política entre os cidadãos e postulantes ao Legislativo.
O comunicador interrompeu a dinâmica do programa para defender o uso do sistema. Poucas horas depois da exibição em horário nobre, usuários começaram a publicar simulações com resultados distorcidos, contestar as perguntas do questionário e denunciar a predominância de nomes conservadores nos índices de afinidade.
Um dos testes que mais repercutiram partiu de Felipe Marinho de Oliveira. Ele se declarou de esquerda e decidiu responder ao formulário simulando posições ainda mais radicais que as suas, adotando a postura de um “comunista trotskista”.
O resultado entregue pelo sistema gerou espanto ao apontar alta compatibilidade com quadros do liberalismo econômico: Sol Villas Boas, do Novo, com 69% de proximidade; Marcela Gomes, também do Novo, com 50%; e Ítalo Moreira, do Missão, com 61%. Nas três fichas, o TemMeuVoto informava que as respostas haviam sido fornecidas pelas próprias campanhas.
A identidade ideológica dessas siglas não é segredo. Em publicação institucional recente, o próprio Novo frisou com clareza: “O Partido Novo (30) é de direita”. O Missão, por sua vez, registra em seu estatuto no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o “caráter liberal” e o compromisso estrito com a economia de mercado.
Outros internautas relataram o mesmo padrão. Dudu Guimarães exibiu simulações dominadas por nomes do Novo e do PL, enquanto Julio Freire questionou se o sistema não opera como uma vitrine de indução para capturar o voto de eleitores indecisos na reta final da disputa.
A repercussão, porém, abriu uma questão de fundo: como o TemMeuVoto calcula essas afinidades e quem decide o peso de cada resposta?
A resposta está nos bastidores da própria metodologia do TemMeuVoto. A versão atualmente em vigor foi atualizada em 27 de setembro de 2026, exatamente o mesmo domingo em que Huck exibiu a plataforma na Globo.
O eleitor responde a oito afirmações. Quando o candidato também respondeu, o cruzamento é direto. Mas quando a candidatura não participou do formulário, o sistema adota regras próprias de inferência.
Para deputados federais em exercício, a plataforma converte votações nominais da Câmara (2023–2026) em respostas presumidas. Se o postulante à Câmara ou ao Senado não tiver votos nem formulário, ele recebe a posição atribuída à bancada do seu partido.
Quem seleciona as votações e define o significado do voto parlamentar é a própria organização. O documento metodológico confessa textualmente que “a escolha das votações e do sentido que cada voto representa é decisão editorial do TemMeuVoto”.
Esse filtro manual gera distorções evidentes. No tema trabalhista, a plataforma escolheu a votação sobre a escala 6×1. O próprio documento admite que o placar de 472 a 22 “separa pouco” os parlamentares, mas manteve a matéria no cálculo por pura “decisão editorial”.
Mais grave ainda: na área de segurança pública, a plataforma precisou substituir uma votação porque o sentido do voto estava invertido em relação à pergunta feita ao eleitor (o “sim” garantia uma pena branda e o “não” uma pena dura). A correção foi admitida publicamente para sanar a leitura distorcida.
A formulação das oito premissas também embute premissas econômicas do pensamento liberal. Em vez de temas neutros, o questionário amarra políticas públicas a sacrifícios e perdas de garantias.
No tópico trabalhista, o eleitor deve dizer se aceita maior liberdade de negociação mesmo que isso reduza direitos previstos em lei. Na pauta tributária, a redução de impostos aparece vinculada ao corte de serviços públicos. No meio ambiente, o combate às mudanças climáticas é condicionado à imposição de custos à economia.
Além disso, há um desequilíbrio estrutural federativo: candidatos a deputado estadual ou distrital que não responderam ao formulário não recebem inferência da bancada partidária. Se a candidatura de base ou de esquerda não preencheu o questionário de ONGs privadas, ela fica sem percentual de proximidade, enquanto candidaturas de direita engajadas nas redes pontuam com facilidade diante do público.
O mapa de apoios da ferramenta aprofunda os questionamentos sobre sua suposta neutralidade.
A página oficial do TemMeuVoto lista hoje 13 entidades na Coalizão pelo Voto Consciente, entre elas Centro de Liderança Pública (CLP), Comunitas, Instituto Ethos, Movimento Pessoas à Frente e o RenovaBR.
No lançamento da ferramenta, contudo, a formação era diferente. Em comunicado de 17 de setembro, o próprio RenovaBR celebrava que a coalizão reunia 14 organizações, incluindo o Livres. Hoje, o Livres não consta mais no site do TemMeuVoto, sem que qualquer explicação pública tenha sido dada para a alteração.
O Livres se apresenta abertamente como uma entidade voltada a formular e defender “soluções liberais para o Brasil”. Em seus canais, o movimento destaca conexões com a alemã Friedrich Naumann Foundation, a Liberal International e a norte-americana Atlas Network, conhecida articuladora global de think tanks de direita, responsável por patrocinar documentários e programas da organização brasileira.
A aliança de Luciano Huck com esse grupo é antiga. Em 2018, o apresentador atuou como o principal garoto-propaganda do RenovaBR, doou recursos para candidaturas de renovação e promoveu a primeira versão do Tem Meu Voto, a quem apelidou de “Tinder eleitoral”.
Naquele ano, dos 17 parlamentares eleitos com o apoio do RenovaBR, oito eram filiados ao Novo. Nenhuma candidatura do PT integrou a lista de 120 formados pela entidade. Mais recentemente, Huck voltou ao centro de polêmicas políticas ao tecer críticas à dinâmica do Bolsa Família durante palestra para empresários no Guarujá.
A gravidade da exposição no Domingão ganha contornos eleitorais pelo calendário: o primeiro turno ocorre no próximo domingo, 4 de outubro. Desde 6 de agosto, a Resolução 23.610 do TSE proíbe concessões de rádio e TV de veicularem propaganda política ou concederem privilégio a candidaturas em programas regulares.
O TemMeuVoto nega recomendar votos e insiste no discurso apartidário. No entanto, o que a apuração revela por trás da tela é um emaranhado de perguntas carregadas, decisões editoriais subjetivas e vínculos históricos com o campo liberal, levados a milhões de lares na semana mais decisiva da eleição.
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